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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Nem velozes, nem furiosos: por trânsitos mais humanos!

A morte precoce do ator Paul Walker, de apenas 40 anos, em um acidente de carro no dia 30 de novembro, nos obriga imediatamente a refletir sobre a cultura do automóvel, tão celebrada pela série “Velozes e furiosos”, da qual ele era uma das estrelas.


Não é de hoje que carros e motocicletas são associados à velocidade e à liberdade. O próprio Paul Walker, em entrevista à Folha no início do ano, deu a seguinte declaração: “Acho que todo homem pensa em carro como sinônimo de liberdade. Velocidade é isso, sentir-se livre”.

Recentemente, a FLACSO (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) e o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos divulgaram o “Mapa da Violência 2013: acidentes de trânsito e motocicletas”, com análise de dados até 2011.

De acordo com o documento, a violência no trânsito vem aumentando progressivamente no mundo. Isso levou a ONU a instituir a “Década de Ação pela Segurança no Trânsito 2011-2020”, com o objetivo de formular propostas que busquem reduzir o número de vítimas. Para se ter uma ideia, somente em 2010, 1,24 milhão de pessoas morreram no trânsito em 182 países do mundo. Estima-se que outras 50 milhões se envolveram em acidentes, mas sobreviveram.

Na faixa de idade do ator Paul Walker – entre 30 e 44 anos – os acidentes de trânsito são a terceira causa de morte no mundo e, na faixa entre 15 e 29 anos – pasmem! – esta é a primeira causa.

O estudo mostra que, no Brasil, houve uma queda na mortalidade no trânsito a partir de 1997, com o endurecimento trazido pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Mas isso durou pouco… já em 2000 as taxas voltaram a subir, retornando em 2005 ao mesmo patamar de 1997. Entre 2000 e 2011, houve um aumento de 49,2% no número de mortes no trânsito: de cerca de 29 mil em 2000, passamos a mais de 43 mil mortes em 2011.

O boom das motocicletas é um dos elementos que mais incidiu sobre estes números. Motociclistas são hoje os que mais morrem no trânsito, representando 34% do total de mortes, apesar de constituírem 26% da frota. Se, por um lado, a partir do CTB de 1997, o número de mortes de pedestres – a categoria que mais morria à época – foi reduzido, em todas as demais categorias este número aumentou, com destaque absoluto para as mortes de motociclistas, que cresceram mais de 900%, passando de 1.421 mortes em 1996 para 14.666 em 2011.

No Congresso Nacional, várias são as iniciativas e projetos de lei que tentam enfrentar esta questão. Elas vão desde obrigar motociclistas a usarem air bag, passando pelo aumento das multas por excesso de velocidade e o maior rigor na punição a motoristas embriagados, por exemplo. Estes projetos, porém, partem do pressuposto de que os culpados por acidentes e mortes no trânsito são as próprias vítimas, e pouco voltam a atenção à responsabilidade do Estado na gestão e planejamento do trânsito e da mobilidade.

Se é verdade que a cultura da prepotência, do poder e da velocidade associada ao carro, junto com a irresponsabilidade no uso dos veículos têm um grande peso na constituição de acidentes, é preciso pensar também que a gestão do transporte e do trânsito são fundamentais na prevenção de tais acidentes.
A insuficiência e inadequação do transporte público, que ajuda a aumentar exponencialmente o número de usuários de carros; a falta de ciclovias e de calçadas confortáveis e seguras; a própria ausência de centralidade que o tema da mobilidade tem na gestão das cidades também contribuem enormemente com as altas taxas de acidentes e mortes no trânsito com que ainda convivemos.

É lamentável, mas o fato é que uma mobilidade universal, segura e confortável ainda é um sonho distante nas nossas cidades.

* Raquel Rolnik é urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.

Fonte: Mercado Ético

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